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Efeito sanfona e dietas

Para entender o efeito sanfona vamos lembrar o drama de Edeli? Foi com ela que a gente acompanhou a tortura de fazer uma dieta rigorosíssima, conseguir emagrecer e, em duas, três semanas, voltar a engordar tudo outra vez. Vamos começar recordando como se calcula o IMC  - índice de massa corporal.
O IMC é calculado dividindo o peso da pessoa por sua altura ao quadrado. Resultado entre 18,5 e 24,9 é considerado normal. De 25 a 29 a pessoa tem sobrepeso, isto é, está acima do peso saudável. De 30 a 39, já pode ser considerada obesa. Acima de 40 tem obesidade grave, obesidade grau 3. O IMC da Edeli é 32,44. Ela está obesa.
Para descobrir por que tanta gente enfrenta a mesma luta da Edeli, é importante entender o comportamento das células de gordura. É na infância que elas são formadas. Na verdade, a célula de gordura é uma esfera oleosa e brilhante tão pequena, que são necessárias milhões delas para abrigar as calorias de uma única bala.
Se a criança come muito - e come mal - essas células incham e chegam a ficar seis vezes maior do que o tamanho original. Quando estão cheias, dividem-se duplicando os depósitos gordurosos. Um adulto obeso pode ter até cem bilhões de células de gordura.
As células de gordura, cada vez em maior número e maiores também no tamanho, acompanham a pessoa pelo resto da vida. Por isso, é tão difícil emagrecer, uma vez que nunca a pessoa perde as células de gordura que ganhou ao engordar. Elas ficam no corpo e, na primeira oportunidade, quer dizer, na primeira vez que você comer aquele simples bolinho de arroz, vão novamente inchar e multiplicar-se. Guarde bem esta informação. Nós vamos precisar dela mais tarde. Mas agora vamos voltar à Edeli e suas dietas.
Edeli - Já fiz de 15 a 20 dietas. Eu vivo em dieta.
Quem faz regime - qualquer um - sempre emagrece. O problema começa aí. Como manter o peso? Sim, porque ninguém consegue - e nem agüenta - passar a vida tomando apenas sopa. Com muita fome, a pessoa acaba mesmo assaltando a geladeira, mas a balança é implacável. Pronto: todo o sacrifício foi inútil.
É o músculo, é a gordura, é o metabolismo, é todo o sistema orgânico que vai querer fazer você engordar de novo , explica o endocrinologista Alfredo Halpern.
Lembra da célula de gordura? Quando você faz dieta e diminui o número de calorias nas refeições, as células de gordura não morrem, só encolhem. Elas "murcham". O cérebro interpreta esse "encolhimento" como ameaça à integridade do organismo. E o que acontece? O corpo começa a queimar menos energia. O metabolismo fica mais lento.
Dr. Alfredo Halpern - Uma perda de dez quilos representa 200 calorias a menos que o organismo deixa de queimar. Em outras palavras: para cada dez quilos que eu perco, meu corpo começa a gastar menos 200 calorias por dia.
Isso quer dizer que existe uma conspiração do corpo para fazer o peso voltar ao que era antes da dieta. Esse é que é o efeito sanfona, pois o cérebro tende a manter o maior peso que você já adquiriu. É preciso que ele passe muitos anos numa determinada faixa para adaptar-se ao novo peso.
Dr. Alfredo Halpern - Eu uso um número cabalístico de tantos meses quantos os quilos perdidos. Se o indivíduo perdeu 20 quilos, durante 20 meses, vai precisar manter a atenção bem rígida, bem forte, para não ganhar peso de novo.
Durante muito tempo, a obesidade foi encarada como um problema de quem come demais. Hoje, a ciência sabe que o tecido gorduroso não é um simples depósito de energia. Ele faz parte do sistema endócrino. É a maior glândula que temos e libera substâncias que vão agir no centro da fome e no centro da saciedade. Quanto mais gordura você tem, mais fome irá sentir.
Edeli - As pessoas normais possivelmente comem uma torta holandesa e tudo bem. Mas eu como uma torta holandesa e fico com vontade de comer outra.
O controle do apetite e da saciedade - a sensação de que já comemos o suficiente - acontece no cérebro e independe da nossa vontade. O impulso da fome é tão forte quanto o da sede.
Na rotina diária, dois hormônios, a grelina e o PYY, controlam e administram o apetite e a saciedade. Quando está vazio, o estômago libera um hormônio chamado grelina. A função da grelina é estimular o centro da fome e nos alertar de que está na hora de comer. À medida que enchemos o estômago, a produção de grelina cai e o apetite diminui.
Depois de passar pelo estômago, a comida vai para o intestino. Ali é liberado um outro hormônio, o PYY, que vai estimular o centro da saciedade. Um aviso para pararmos de comer.
Edeli - Eu queria mesmo é me sentir saciada. Ter a sensação de que eu estou satisfeita.
O problema é que o centro da saciedade demora um pouco até ser ativado. Esse tempo varia de uma pessoa para outra. Mas, para comer menos, é importante comer devagar, descansar os talheres, para dar tempo de o hormônio PYY chegar até o cérebro.
Edeli- Se tem alguém conversando comigo até que eu como devagar. Mas se eu estou sozinha, como na maioria das vezes, acabo comendo super rápido.
O equilíbrio entre a grelina e o PYY indica quando devemos começar ou terminar uma refeição. Mas, dependendo do tipo de alimento que comemos, esses hormônios são liberados em quantidades diferentes. Por exemplo, carboidratos simples, como batata e doces, são absorvidos antes dos intestinos produzirem o hormônio PYY, que inibe a fome. É isso que acontece quando comemos aquela macarronada de domingo em família e, poucas horas depois, sentimos vontade de comer de novo. Já a gordura de outros alimentos, como a da carne vermelha, por exemplo, demora mais para ser digerida e o PYY pode fazer efeito, dando a sensação de que estamos satisfeitos.
A longo prazo, o controle do peso depende de outros hormônios. Os mais importantes são a lepitina e a insulina. A insulina é produzida por um tipo especial de célula localizada no pâncreas e inibe o apetite. O outro hormônio, a lepitina, ativa o centro da saciedade - a área do cérebro que nos manda parar de comer.
A descoberta da lepitina, em 1994, foi comemorada como solução perfeita para o problema da obesidade. Ratos gordos emagreceram rapidamente ao receber injeções de lepitina. Mas, nos humanos, a resposta foi diferente.
Seria ótimo se a medicina tivesse uma solução mágica para o tormento da Edeli e o de tantos iguais a ela. Infelizmente isso não é possível.