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Dra. Júlia Greve é médica fisiatra. Trabalha no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo onde recebe vítimas de atos violentos para serem tratadas e submetidas a longo processo de reabilitação.

Face oculta da violência

DrauzioQuais são os acidentados que mais freqüentemente procuram o Hospital das Clínicas, um centro médico bastante representativo na cidade de São Paulo?
J. Greve - O Hospital das Clínicas recebe pessoas que sofreram desde acidentes mais simples até os de alta complexidade, aqueles em que o indivíduo sofre lesões em várias partes do corpo e que têm evolução prolongada no que se refere ao tratamento e principalmente à reabilitação.
Na verdade, a epidemia dessa doença contagiosa, que é a violência, está aumentando de forma significativa e atinge principalmente jovens do sexo masculino, abaixo dos 35 anos, que, se sobreviverem, podem ficar com seqüelas ou incapacidades permanentes.
É enorme o número de pessoas que, dois ou três anos após o acidente, continua se submetendo a longos e dispendiosos tratamentos de reabilitação, nem sempre com bons resultados, pelo menos os resultados que os pacientes imaginam e desejam, uma vez que grande parte deles permanece em cadeiras-de-roda, dependendo de terceiros para tocar a vida. Essa face meio oculta da violência impede que se tenha uma dimensão clara dos males que acometem não só quem sofre um ato violento, mas as pessoas ao redor. Dificilmente alguém que não esteja diretamente ligado ao problema faz idéia de sua real dimensão.

Drauzio Em cada cem pessoas que chegam ao HC vítimas de violência, desde tentativas de assassinato até acidentes de automóvel ou moto, quantas são dispensadas porque tinham ferimentos leves e quantas são internadas e submetidas a tratamento fisiátrico?
J. Greve – Considerando o movimento rotineiro do pronto-socorro, pode-se dizer que mais ou menos um quarto desses pacientes permanece internado e que 20% a 30% deles irão manifestar algum tipo de seqüela. Pode não ser uma seqüela permanente, mas será uma seqüela que exige tratamento prolongado, procedimentos cirúrgicos e um processo de reabilitação com equipe multidisciplinar que envolve longos períodos de fisioterapia e terapia ocupacional para que o indivíduo possa retomar a vida. Nem sempre eles conseguem voltar a estudar ou a trabalhar como antes.
Um paciente com lesão na medula espinal que ficou paraplégico vai ter que andar de cadeiras de rodas, talvez dependendo de terceiros para cuidar de si mesmo, porque infelizmente a medicina ainda não encontrou a fórmula para curar esse tipo de lesão.
Em nossa enfermaria, que tem 20 leitos, recebemos por mês de 4 a 5 pacientes novos com lesão da coluna espinal que vão apresentar algum tipo de seqüela.