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Dr. Gilberto Camanho é médico ortopedista. Especialista em Medicina Esportiva, trabalha no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.


Tendinite e distensão muscular

Drauzio - O corpo humano tem características de design que são inatas. O que o exercício físico deve respeitar para não lesar músculos e articulações?
G. Camanho
- Existem limites individuais, limites que decorrem da idade e outros que decorrem do tipo da atividade física. Cada articulação tem uma limitação que deve ser respeitada e não adianta fazê-la trabalhar além de sua capacidade. Sempre que se fizer alguma coisa que extrapole o limite estrutural desse complexo de peças que compõe o corpo humano, o indivíduo vai apresentar problemas, por exemplo, a tendinite.

Drauzio - O que é tendinite?
G. Camanho - A imagem 1 reproduz o desenho anatômico de uma articulação, a articulação do joelho, por ser a que mais apresenta problemas. Os tendões são essas estruturas esbranquiçadas nas quais os músculos (estruturas em vermelho) motores da articulação se inserem. A transmissão de força provocada por um músculo é feita através do tendão e é assim que se produz o movimento. Por exemplo, o músculo contrai, o tendão puxa o osso e o joelho dobra. A força exercida em cima dos tendões é imensa. Os tendões são constituídos por tecidos com pouca quantidade de água e que deformam muito pouco. Portanto, quase transmitem a mesma força que recebem do músculo e da resistência do solo. O indivíduo que salta, para cair adequadamente, contrai a musculatura e cabe ao tendão segurá-la nessa posição. Como qualquer tecido vivo, os tendões têm limites e podem sofrer pequenas ruturas e processos inflamatórios. A cicatrização desses processos não raramente se faz por outros tecidos. Quer dizer, o lugar do processo inflamatório vira uma calcificação, vira um tecido de elasticidade menor e é isso que configura as tendinites, responsáveis por mais da metade dos problemas que acometem quem tem uma atividade física. Elas podem ser seriíssimas a ponto de impedir que o indivíduo continue praticando esporte.

Drauzio - Em geral, quem faz exercícios que solicitam muito a musculatura, quando sente dor, costuma rotulá-la de distensão muscular. As distensões musculares, ou seja, a rutura do músculo, são tão freqüentes quanto as tendinites?
G. Camanho - Não são tão freqüentes quanto as tendinites. A distensão muscular é provocada pela fadiga do músculo. O interessante é que sempre avisa que está prestes a acontecer. O indivíduo sente dor e tem uma contratura muscular por minutos ou segundos antes da rutura. Se soubesse respeitar esse sintoma e parasse imediatamente o exercício, poucos seriam os casos de distensão, uma lesão que ocorre no corpo do músculo e não nos tendões.

Drauzio - A imagem2 mostra um joelho visto por trás. O que tem de especial?
G. Camanho - Veja o número enorme de tendões que a natureza nos dá para que possamos fazer todos os movimentos que fazemos. Nessa imagem, aparece também a linha articular do joelho e o músculo que se localiza na região posterior da coxa e que, com muita freqüência, sofre distensões, ou seja, ruturas da massa muscular. Essa é uma lesão comum nos jogadores de futebol e nos corredores.

Drauzio - Como ela poderia ser evitada?
G. Camanho - Para que a massa muscular exerça uma atividade durante período prolongado de tempo, precisa ser adequadamente preparada. A fase de aquecimento é importante para ativar a circulação da musculatura e pôr em atividade metabólica todas as fibras musculares que vão ser requisitadas pelo movimento, e os exercícios de alongamento, para que a fibra muscular lenta e progressivamente atinja toda a capacidade de movimento e extensão. Desse modo, procura-se evitar que, durante o jogo de futebol, por exemplo, de maneira abrupta, o músculo se rompa e o jogador sofra uma distensão que pode afastá-lo do campo por muito tempo.