Esfíncter artificial e neuro-estimulação

Drauzio - Quais são esses métodos para casos graves?
Angelita Gama - Para casos muito graves de incontinência, quando a denervação e a rutura são grandes, podemos dispor do esfíncter artificial que funciona como se fosse um tubo comunicante. É uma peça feita com material plástico que circunda o ânus, um balão colocado pelo abdômen em cima do púbis e uma bomba que se fixa nos grandes lábios ou no escroto. A pessoa aperta o botão que existe na bomba, o líquido se movimenta e o ânus abre ou fecha.
Drauzio - Funciona bem esse esfíncter artificial?
Angelita Gama - Funciona melhor que os demais artifícios de que dispúnhamos até agora. A pessoa não fica perfeita, porque perfeição em matéria de continência anal ou urinária, só Deus quando a gente nasce. A única dificuldade é o custo. Um aparelho desses custa dez mil dólares. Nos só conseguimos levar essa técnica para o HC com o apoio da Fapesp (bendita Fapesp!) que doou um número razoável de esfíncteres. Eles foram colocados especialmente em jovens com incontinência secundária e que tinham alterações congênitas. Os resultados foram animadores, pois muitos jovens, que eram totalmente incontinentes, até se casaram depois da colocação dos esfíncteres.
Além do esfíncter artificial, podemos contar também com a neuroestimulação sacral que pode beneficiar um número significativo de doentes.
Drauzio - Como é feita a neuro-estimulação sacral?
Angelita Gama - Colocamos uma agulha na terceira vértebra sacral e fazemos um teste, porque existe ali um mecanismo reflexo integrado desencadeado por nervos que saem do forame sacral e comandam a musculatura esfincteriana. Se houver contração dessa musculatura, implantamos um marca-passo que vai permanentemente estimular esses nervos. São pequenos choques elétricos que a pessoa recebe sem sentir o menor incômodo, sem sentir dor alguma, e que contraem a musculatura.
Drauzio - Esses tratamentos para a incontinência fecal são aplicados com freqüência?
Angelita Gama - Tanto o esfíncter artificial quanto a neuroestimulação são tratamentos de exceção para as formas mais graves de incontinência, para aquelas em que o procedimento de reparo muscular não dá resultado.
Hoje, há médicos que desconhecem a existência de tratamentos cirúrgicos para incontinência fecal e a população jamais ouviu falar sobre eles. Tenho muitos anos de profissão e esta é a primeira vez que, na mídia, alguém me convida para abordar esse tema de tamanha importância social e tão cercado de preconceitos.
Drauzio - O que a correção da incontinência fecal muda na vida das pessoas?
Angelita Gama - Muda muito. Os pacientes levam outra vida. Levam uma vida digna porque a incontinência os aproxima dos animais. Costumo dizer que a diferença entre o homem e o animal está no fato de que o homem evacua na hora que quiser e é capaz de segurar as fezes. O animal não tem controle definido. A incapacidade de segurar as fezes faz com que o ser humano se sinta rebaixado emocionalmente. Por isso, o tratamento clínico ou cirúrgico é fundamental e as pessoas com esse problema não devem resistir para procurar o médico.