Falta de visão política

Drauzio – O Butantan,
que foi um centro avançado de
pesquisa, atravessou depois fases muito difíceis. O que explica
esses maus momentos?
Willy Beçak – Infelizmente, quando as interferências
políticas se tornaram comuns nos institutos de pesquisa, muitos
cientistas foram expulsos. Embora readmitidos mais tarde, essas temporadas
de ausência e interrupções prejudicavam muito
o andamento dos trabalhos. Por isso, assim como os outros institutos
de pesquisa, até bem pouco tempo atrás, o Butantan
experimentou fases de crescimento intercaladas com períodos
de grande crise.
Drauzio – O Estado não tem verba para manter os institutos
de pesquisa funcionando a contento. O dinheiro, às vezes,
vem; às vezes, não vem. Como essa inconstância
pode interferir no futuro dessas instituições?
Willy Beçak - Esse é um ponto extremamente importante
e que me interessa muito. No Brasil, tanto o governo federal quanto
o estadual precisam estabelecer uma política consistente visando
ao desenvolvimento científico e tecnológico. O fato é que, às
vezes, eles aumentam ou diminuem a verba, por pressão ou condescendência,
mas lhes falta a visão de que as conquistas da ciência
são fundamentais para o progresso do país.
Os Estados Unidos, até hoje, são os que mais investem
em ciência e tecnologia. Mesmo assim, estão preocupados
com o que vai acontecer daqui a vinte anos, porque acreditam não
estar investindo o suficiente. País com essa consciência,
certamente, reconhece sua responsabilidade social no que se refere à saúde
pública, à educação e ao desenvolvimento
científico e tecnológico.
No Brasil, existe pouca preocupação com a pesquisa.
As verbas estão muito aquém das necessidades. Em São
Paulo, a FAPESP supre em parte essa deficiência, porque tem
receita própria. A meu ver, porém, é obrigação
do Estado investir maciçamente em institutos de pesquisa.
Não é exagero dizer que a contribuição
científica e tecnológica para o desenvolvimento de
novas espécies do Instituto Agronômico, fundado pelo
imperador Pedro II, há mais de cem anos, e dos institutos
Butantan e Adolfo Lutz para a saúde pública, foi fundamental
para o progresso do Estado, que deixou de ser uma província
atrasada e pequena para transformar-se no expoente que é hoje.
No entanto, se investe muito pouco para que esses institutos continuem
funcionando e em projetos de pesquisas que os tornem competitivos
internacionalmente.
Drauzio – Os americanos
investem 3% do produto nacional bruto em pesquisas científicas; a França e a Itália
menos da metade desse valor. Como conseqüência, em muitos
campos, os Estados Unidos estão anos e anos na frente da Europa.
Diante dessa perspectiva, não parece lógico que investir
em pesquisa é a única forma de assegurar uma vida melhor
para nossos filhos e netos? Que cegueira é essa que impede
nossos dirigentes de enxergarem essa realidade?
Willy Beçak – Continuo dizendo que alguns políticos
se empenham em prestigiar mais a pesquisa científica, mas
o fazem por condescendência, não porque tenham consciência
de sua importância. Parte da responsabilidade cabe a eles, é certo,
mas parte cabe a nós. A comunidade científica tem-se
isolado muito, fala intra-muros, o que está errado. Temos
que nos valer da mídia, ir ao Senado, à Câmara
dos Deputados, aos chefes de governo e insistir na importância
do apoio à pesquisa científica e tecnológica.
Cabe a nós, e à sociedade como um todo, o dever de
pressionar.
Veja o que aconteceu na França. O Instituto Pasteur de Paris
não é patrocinado apenas pelo governo. A comunidade
também está envolvida nesse trabalho. Como estava para
ser fechado por falta de verba, o povo se mobilizou e exigiu das
autoridades e das instituições que investissem para
mantê-lo funcionando. Aqui no Brasil, gasta-se tanto dinheiro à toa,
dinheiro que poderia ser aplicado em ciência e desenvolvimento.