Gagueira
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Fernanda Papaterra Limongi é fonoaudióloga, formada pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e com pós-graduação na University of North Dakota, EUA.


Tratamento

Drauzio – Como costumam evoluir os casos de gagueira se não forem tratados?
Fernanda P. Limongi
- Até a década de 1960, não se tratava gagueira no Brasil. Quando muito, a pessoa era encaminhada para terapia que podia deixá-la mais ajustada, mas continuava gaga, se não tratasse as tensões.
Como a gagueira é uma desordem que se manifesta preferentemente na primeira infância, alguns indivíduos acabavam criando mecanismos que os ajudavam a vencer a dificuldade ou permaneciam gagos pela vida toda. Às vezes, eram obrigados a optar por profissões que não dependessem da fala como instrumento de trabalho. Soube de uma professora que selecionava as palavras usadas em sala de aula para evitar os fonemas temidos.
Embora muitos gagos não se tratem, gagueira tem tratamento e tem cura.

Drauzio – Em que consiste o tratamento de uma criança gaga?
Fernanda P. Limongi – Primeiro, é preciso verificar se a criança está consciente da dificuldade e consegue entender o que está ocorrendo. Com crianças em idade escolar, a partir dos sete anos, jogo aberto e uso a palavra gagueira. Antigamente, não era essa a conduta recomendada. Empregavam-se eufemismos – ela tem um probleminha de fala, porque acreditavam que dar nome ao fato piorava o quadro.
Uma vez recebi uma criança que já havia feito terapia por bom tempo com uma pessoa que não mencionava a palavra gagueira. Quando lhe falei como chamava o distúrbio que apresentava, ela observou aliviada: “Que bom! Enfim alguém descobriu o que eu tenho”.

Drauzio – Não adianta disfarçar. Na rua, todos vão falar gagueira mesmo. Quando avalia uma criança, você lhe diz, “Olhe, você é gaga”?
Fernanda P. Limongi – Falar que são gagas talvez seja um pouco forte demais. Digo que estão gaguejando e, na maioria das vezes, noto que elas se sentem aliviadas. A seguir, procuro determinar a gravidade da gagueira em leitura, no monólogo, na conversação, vejo se existem palavras temidas e se já adquiriram mecanismos como bater na mesa, piscar o olho ou valer-se de palavras e expressões que funcionam como muletas, tais como “hum, hum, hum”, “quer dizer”, “no caso”. Recentemente, recebi um paciente que falava “no caso”. Se lhe perguntávamos em que rua morava, respondia: “No caso, moro na rua tal”.

Drauzio – Muita gente faz isso. Tem quem fale né, entende, então, olhe, sabe, o tempo todo e sem a menor necessidade.
Fernanda P. Limongi – Essas palavras funcionariam como mecanismos de adiamento para pensar o que falar. De qualquer forma, é até corriqueiro encontrar pessoa que tem esse hábito ao falar, mas ele não aparece na leitura, como nos gagos, pois, se não fizerem assim, não conseguem terminar a frase.

Drauzio – Que técnicas são usadas para corrigir esse problema?
Fernanda P. Limongi – A modificação do comportamento é a técnica de que nos valemos para o tratamento. Se a criança tem mais de sete anos, filmo-a enquanto fala e depois peço que aponte o que vê de errado em sua comunicação. Às vezes, gagueja muito; às vezes, repete palavras, tensiona o olho, pisca ou entorta a boca sem tomar consciência do que está fazendo.
Definimos os momentos de gagueira como bloqueios (as palavras não saem), repetição (pa-pa-pa papagaio) e prolongamento (e...e...e...então) e quantificá-los ajuda a perceber a gravidade do distúrbio. “Em um minuto você gaguejou cinco vezes, ou duas, ou três.”
Existem pessoas que marcam consulta, mas não gaguejam quando atendidas porque aliviam a tensão só de falar no assunto.

Drauzio – Como evolui o tratamento?
Fernanda P. Limongi - Acredito que a gagueira seja um evento que pode ser desativado pela modificação do comportamento. Até as crianças entendem a analogia com um vidro de geléia difícil de abrir. A gente força, força, e só desiste quando atingiu o objetivo: girar a tampa e abrir o vidro. O mesmo acontece com a pessoa que quer falar “pato”, por exemplo. Ela força até a palavra sair, mas gagueja e vai ser assim enquanto não aprender que não pode lutar. Essa é a primeira etapa do tratamento: o cancelamento da luta. Diante da palavra temida, percebendo que vai lutar, a pessoa deve parar, desmanchar a postura articulatória, relaxar e tentar pronunciá-la com contato suave. Às vezes, no começo, não consegue fazê-lo numa situação de estresse ou pressa, mas repetindo a técnica, automatiza o comportamento e torna-se fluente.

Drauzio – Quer dizer que as pessoas podem não perceber suas dificuldades ao falar?
Fernanda P. Limongi – A pessoa fala automaticamente e não percebe, por exemplo, que repetiu inúmeras vezes a mesma palavra. Por isso, o primeiro passo é ajudá-la a identificar o problema. O interessante é que, se lhe perguntarmos quantas vezes gaguejou ao ler um texto, acha que foram cinco. Quando vê o filme, descobre que foram cinqüenta.
O processo de identificação é seguido pelo de cancelamento da luta: a pessoa tem que aprender a não lutar. O terceiro passo é aprender a falar com contato suave. A instrução é “Você está falando, percebeu que vai lutar, pare e relaxe a musculatura, como o faz quando cai a linha numa ligação telefônica ou alguma coisa lhe distraiu a atenção. Fique com a palavra congelada na boca, dando a impressão de que ia falar, mas desistiu”.

Drauzio – E o passo seguinte, qual é?
Fernanda P. Limongi – O próximo passo é a fluência. A pessoa precisa aprender a ser fluente primeiro na leitura, depois no monólogo e, por fim, na conversação. Ela precisa aprender a falar sem luta, com contato suave e a abandonar os mecanismos adquiridos por causa da gagueira.

Drauzio – Como são tratadas as crianças muito pequenas?
Fernanda P. Limongi – Se a criança é muito pequena, trabalho com os pais que são orientados para não a conscientizarem da luta ao falar. Em geral, a maioria não sabe como agir, se falam a palavra gaguejada ou ignoram o fato. O melhor é não chamar atenção para o problema. Os pais devem dar tempo para a criança expressar-se e jamais terminar por ela a palavra gaguejada.

Drauzio – Imagino que haja diferentes graus de gagueira. Há pessoas ligeiramente gagas e outras muito gagas. Em média, quanto dura o tratamento?
Fernanda P. Limongi – Em média, o tratamento dura um ano. Esse é o tempo que se leva para estabelecer a fluência primeiro diante do terapeuta que conhece a dificuldade, o que deixa a pessoa mais à vontade. Depois, vem a fase de transferência para outras situações e de manutenção. No entanto, algumas pessoas com dois meses de terapia tornam-se tão fluentes e felizes que podem abandonar o tratamento.

Drauzio – Os resultados são gratificantes?
Fernanda P. Limongi – São, se for uma gagueira funcional, o que ocorre na maior parte dos casos. Mais fluentes e felizes, as pessoas mudam de vida, porque a comunicação é fundamental. Quando existe um componente neurológico associado, a resposta depende da gravidade da lesão.