Fragmentos das entrevistas que deram origem ao livro







Confira a história
inédita de um
travesti no Amarelo


Crítica do filme













As imagens inesquecíveis de “Carandiru”

Comecei a escrever as histórias que deram origem ao “Estação Carandiru”, com a intenção de publicá-las num desses jornais que sangram ao espremer. Ao relatá-las, surgiu um impasse, no entanto: como o leitor poderia entender os fatos ocorridos no presídio sem o conhecer?
Depois de muita hesitação, achei melhor fazer uma descrição geral da cadeia, mesmo sem saber direito como iria usá-la mais tarde. Na execução dessa tarefa, percebi que talvez pudesse ligar as instalações com os personagens e as histórias nelas vividas.
Quando o livro estava quase pronto, pedi ao Hector Babenco que o lesse, motivado pela convicção de que ninguém como ele, amigo fraterno, artista sensível ao tema abordado, argumentador inflamado, seria capaz de analisar com franqueza rude a qualidade do trabalho recém-terminado.
Dois dias depois, ele me telefonou:
-- O que você pretende com essa descrição detalhada de portas, janelas e interiores de celas? Você parece um notário de tabelião!
-- Em que página você está?
-- Vigésima.
-- Tenha dó! Leia um pouco mais antes de pôr defeito.
Três dias depois, encontro um recado na secretária eletrônica:
-- Preciso falar com você. É muito sério!
A entonação tinha a dramaticidade de um tango de Gardel. Liguei de volta, apesar da hora.
Ele disse que estava sob o impacto da leitura. Talvez o livro pudesse ser adaptado para o cinema. Queria pensar.
Jamais imaginei que fosse possível fazer um filme com mais de 160 personagens e os milhares de figurantes do livro, nem que a fragilidade de sua saúde na época o permitisse. Quatro anos mais tarde, “Carandiru” explode nas telas como um dos maiores sucessos da história do cinema brasileiro. Difícil encontrar outra pessoa com a obstinação do Hector!
Todos dizem que é angustiante para o autor ver seu texto transformado em roteiro cinematográfico. Não tive esse problema. Embora o número de personagens tenha sido reduzido a um décimo e as histórias sintetizadas, decompostas e esquartejadas como num samba do crioulo doido em obediência às necessidades da linguagem do cinema, assisti ao filme sete vezes, e cada vez gosto mais dele. A mutilação do texto respeitou as características fundamentais do livro, aqueles que o leram reconhecem-no já na primeira cena quando os presos brigam nas celas do Amarelo - o setor dos marcados para morrer - embora essa história não exista no livro.

É uma experiência surpreendente ouvir frases idênticas às que escrevi na boca de outros personagens, em situações distintas das descritas por mim, e constatar que essa apropriação dos roteiristas conservou, e muitas vezes enriqueceu, o significado dos acontecimentos e das idéias apresentadas no livro.
Mas, talvez o mais impressionante em “Carandiru” seja a recriação primorosa do ambiente interno do presídio. Daqui a cem anos, se alguém quiser saber como era a maior cadeia do Brasil no final do século XX, vai dispor de um documento fiel. As cenas das galerias e do pátio externo foram filmadas no pavilhão Dois, porém as que se passaram no interior das celas tiveram que ser rodadas nos estúdios da Vera Cruz, por exigências técnicas. A equipe de arte dirigida por Clovis Bueno fez um trabalho de criação tão perfeito, tão respeitoso aos detalhes, que nem os funcionários mais antigos da Detenção desconfiaram da existência de cenários. A presença onipotente de Nossa Senhora Aparecida, tradicional protetora da cadeia, desenhada em tamanho gigante na muralha, por exemplo, é antológica.
Às vezes, levamos cinco minutos para perceber que estamos vendo um filme a que já assistimos. Com “Carandiru” isso jamais acontecerá; as imagens são inesquecíveis. O jogo delicado da luz de Walter de Carvalho que escurece à medida que se aproxima o final dramático, a imagem da conversão religiosa de Peixeira atormentado na chuva, o cachorro andando pela galeria, a água escorrendo aos borbotões escada abaixo - muito mais carregada de significado do que a descrição literária na qual se baseou -, Rita Cadillac em sua dança sensual, os corpos cobertos de sangue iluminados com beleza extrema para nos lembrar que não estamos diante da realidade mas de uma obra de arte, e o emocionante hino nacional brasileiro cantado pelos detentos no jogo de futebol para deixar claro que gostemos ou não somos todos brasileiros, são imagens que impregnam nossa memória para sempre.
“Carandiru” é um daqueles filmes que o expectador nunca mais esquece. Vocês não imaginam a felicidade de escrever um livro que deu origem a um filme desses!