Fragmentos das entrevistas que deram origem ao livro







Confira a história
inédita de um
travesti no Amarelo


Crítica do filme













"Eu penso nessa nega, aí, e só. Não penso em mais ninguém. Eu tenho que encontrar com essa nega antes de morrer. O meu medo é morrer e não ver ela. O senhor pode crer, se eu morrer na cadeia, eu não vou morrer sossegado.

É o que eu mais quero nessa vida. Primeiramente, é ver a Rosirene de novo, depois, é matar o Mato Grosso. O Mato Grosso é segundo plano. Mas a primeira coisa é ver a Rosirene, eu queria ver ela mais uma vez. É uma nega linda, viu, doutor?

Rárárá... tá louco! A nega me enfeitiçou, a nega me enfeitiçou. Já tá na hora, né, doutor?"

"Esse tal de Charuto tinha sorriso alvo e dentição perfeita, raridade no ambiente. Malandro completo no andar, falar e olhar..."

Assim começa a história "Paixão arrebatadora", na qual Charuto é o personagem principal. Seu depoimento, recheado de expressões clássicas da malandragem, é marcado pela descrição de uma série de escolhas erradas que acabaram por selar seu destino. A primeira delas foi a decisão de sair de casa por causa de uma briga banal. Dias depois, dormindo na rua, resolveu passar a noite na companhia de um grupo de amigos que planejava um assalto. A operação terminou de forma desastrada, e Charuto seguiria para sua primeira cadeia. Essa primeira passagem definiria sua ligação com o crime. Diz que aprendeu a roubar dentro da cadeia. Quando saiu, era assaltante formado.

Anos mais tarde, já em liberdade, um impulso ciumento causaria a segunda e definitiva pena. Vivia com a mulher por quem era apaixonado, por quem havia deixado esposa e filho. Mesmo assim, sentindo-se traído, pensou na solução final. "Eu ia jogar uma panela de 20 litros de água fervendo em cima dela, doutor". Porém, um policial à paisana, estrategicamente posicionado, notou que as intenções de Charuto não podiam ser boas. Uma breve discussão, um desacato e nova prisão. A vida de Rosirene estava salva e a de Charuto, mais uma vez, destinada à prisão. "Eu vou dizer uma coisa pro senhor, o que não presta é a pinga. É ela que dá coragem pra fazer essas malvadezas. Maconha é calmante, o crack deixa você como bobo. Mas quando eu bebia, eu ficava perigoso. Pinga é uma perdição".

Entrevista

Drauzio - Os teus crimes quais foram?
Charuto - Eu estraguei minha vida numa fita, aí... Eu nem era ladrão, eu não era nada.

Drauzio - Que idade você tinha?
Charuto - Eu tinha 20 anos. Era o caçula de casa, tinha o maior dengo, entendeu? Minha mãe dava tudo que eu queria, na medida do possível. Mas uma vez, por incrível que pareça, eu briguei. Eu briguei em casa e saí. Já tinha uns dois dias que eu tava na rua, no maior veneno, sem comer nada, quando eu parei numa fogueira, lá na vila mesmo, pra conversar com uns camaradas. Essa noite acabou com a minha vida.

Drauzio - E esse foi o único crime que você cometeu?
Charuto - Não, não foi o único crime, também. Tirei um monte de cadeia, 10 anos e 8 meses. Aí, eu roubei. Antes disso eu nunca tinha roubado. Eu comecei a roubar depois do que eu aprendi aqui. Por que isso aqui não endireita ninguém, não. Eu virei ladrão aqui dentro.

Drauzio - Você tem família?
Charuto - Eu tenho dois filhos, doutor. Um com uma mulher, outro com outra. Mas eu não sei onde eles estão. O mais velho está com 14, faz 4 anos que eu não vejo ele.

Drauzio - A última vez que você teve visita aqui quando foi?
Charuto - Visita? Ah, nessa cadeia eu nunca tive visita! Tem mais de 5 anos que eu tô preso aqui e nunca ninguém me deu um maço de cigarros.

Drauzio - E como é que você consegue se agüentar sem visita?
Charuto - Ah, é na luta, né, doutor. É o conhecimento, a gente pega alguma coisa pra vender, uma camisa, uma calça, um relógio. O cara pede 5, eu peço 8 e o lucro é meu. Eu vivo nessa daí, no maior esgano.

Drauzio - E como você conheceu a Rosirene?
Charuto - Um dia, eu estava na casa da d.Joana, que ia comprar uma parada de pó, quando a Rosirene entrou pela porta. Eu falei, "que nêga bonita!". Ela tava morando nos fundos dessa casa, tinha brigado com o marido e saído de casa. Aí, eu vi essa nega e foi amor à primeira vista. E ela parou na minha, também. Não quis mais ir embora de jeito nenhum.

Drauzio - Quantos anos vocês ficaram juntos?
Charuto - Cinco anos. Eu larguei da minha mulher e do meu filho por causa dela. Agora no final, antes de eu vir pra cadeia é que ela enjoou de mim e me largou pelo Mato Grosso.

Drauzio - E agora?
Charuto - Eu quero matar o Mato Grosso, quando eu ver ele na rua, eu vou matar ele. Agora, ela não. Por que o errado é ele que me conhecia e sabia que ela era minha mulher. Ele não tinha nada que cantar minha mulher.

Drauzio - E você foi apaixonado pela Rosirene?
Charuto - Fui apaixonado e ainda sou. Sou louco por essa mulher.

Drauzio - Ela é bonita?
Charuto - É. Uma nêga dos lábios finos, nariz empinado, linda!

Drauzio - Quanto tempo faz que ela te largou?
Charuto - Faz cinco anos, mas ainda gosto dela a mesma coisa. Às vezes eu sonho...

Drauzio - Você pensa nela todo dia?
Charuto - Todo dia, o dia inteiro.