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Regeneração cardíaca
Regeneração cardíaca
A regeneração do tecido cardíaco é um sonho
antigo da medicina. A possibilidade de uma pessoa que sofreu infarto
regenerar espontaneamente as células perdidas e recuperar a função
cardíaca normal, evitaria sofrimento e os altos custos dos cateterismos
e das pontes de safena.
Ao contrário de órgãos como o fígado, que
cortado ao meio regenera a outra metade em poucos meses, a sabedoria
convencional ensinava que os miócitos (células do músculo
cardíaco) não reparavam o tecido morto por serem incapazes
de se dividir.
Sem possibilidade de multiplicar suas próprias células
quando submetido a um excesso de demanda (miocardiopatias, infarto,
hipertensão), ao músculo cardíaco só restaria
a oportunidade de aumentar o tamanho de cada uma delas para hipertrofiar-se.
A hipertrofia, no entanto, tem seus limites. Sem contar com células
novas para fazer frente ao esforço excessivo, o coração
não consegue crescer indefinidamente para vencer a resistência
aumentada do sistema hidraulico e bombear sangue para as regiões
mais distantes do corpo. Como conseqüência, surge a insuficiência
cardíaca, que evolui com aumento do tamanho do coração,
cansaço, falta de ar aos esforços, inchaço e falência
de múltiplos órgãos.
Além disso, as células musculares hipertrofiadas não
se contraem e relaxam durante os batimentos com a mesma eficiência
das normais, tornando o coração predisposto ao aparecimento
de arritmias que podem levar ao colapso do sistema e à parada
cardíaca.
Piero Anversa e colaboradores do New York Medical College publicaram
em 2001, na revista The New England Journal of Medicine, um estudo realizado
com material colhido por biópsia de miocárdio imediatamente
depois de ocorrido o infarto. Com técnicas elegantes, os pesquisadores
conseguiram demonstrar a presença de miócitos em divisão
celular nas regiões adjacentes à área infartada.
Foram as primeiras evidências de que células cardíacas
também tinham a propriedade de se dividir em resposta à
morte celular imposta por um insulto (o infarto, nesse caso).
Na mesma revista, agora, o grupo de Anversa estudou oito casos de transplante
cardíaco em que mulheres com morte cerebral doaram os corações
para homens. Como os homens apresentam o cromossoma Y não encontrado
no sexo feminino, o experimento ofereceu oportunidade ímpar para
discriminar a origem das células que povoavam o coração
transplantado.
Os autores demonstraram que 14% a 20% de todos os miócitos presentes
no coração feminino transplantado eram positivos para
o cromossoma Y, isto é, derivavam do receptor e não da
doadora do órgão. E, mais, as células vasculares
responsáveis pela formação de novos capilares e
arteríolas encarregados de irrigar a musculatura cardíaca
também eram de origem masculina em 14% dos casos.
Surpreendentemente, esses 14% a 20% de novas células cardíacas
(musculares e vasculares) provenientes do receptor do transplante colonizavam
o coração num intervalo de tempo bastante curto: em média,
53 dias. Num dos pacientes, falecido no quarto dia pós-transplante,
muitos miócitos e arteríolas de origem masculina presentes
no coração já se encontravam em estágio
de plena maturidade celular e eram indistinguíveis das demais
células cardíacas de origem feminina.
O achado dá idéia da rapidez com que o miocárdio,
lesado pela falta de oxigênio inerente à manipulação
do coração durante o procedimento de transplante, orienta
a chegada de células primitivas para se diferenciarem em músculo
e vasos sangüíneos a fim de reparar o defeito e repor as
células perdidas por causa da manipulação cirúrgica.
O que o trabalho não esclarece definitivamente é se essas
novas células, que invadem o coração transplantado,
são células primitivas circulantes do receptor dotadas
da capacidade de se diferenciar em qualquer outra do organismo, ou se
elas se originam em células precursoras contidas no fragmento
do coração do receptor que é suturado ao órgão
doado.
Mas, como em Biologia se sabe que células precursoras se multiplicam
muito mais depressa do que as células primitivas, (e em poucos
dias surgiram células novas masculinas no coração
feminino transplantado), os autores supõem que existam células
precursoras residentes no coração, prontas para migrar
às regiões cardíacas que necessitarem de reparação.
A descoberta da existência de células primitivas que se
diferenciam em miócitos e vasos sangüíneos abre a
perspectiva de atraí-las para as regiões do coração
que foram lesadas por infarto, doença hipertensiva ou miocardiopatias
com a finalidade de reparar os tecidos destruídos. Para tanto
será preciso conhecer melhor o comportamento dessas células
primitivas e identificar quais são os fatores de crescimento
que estimulam sua multiplicação e migração
para a área afetada.
O trabalho do grupo de Nova York derrubou mais um paradigma da Biologia:
o de que as células cardíacas seriam incapazes de multiplicar-se
para reparar defeitos, e abre perspectivas que revolucionarão
a cardiologia dos próximos anos.
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