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Menstruação
Dismenorréia
Cólicas, irritação, mal-estar e sensação
de desconforto no baixo ventre nos dias que antecedem a menstruação,
não são poucas as mulheres a reclamar desses incômodos
que entram em regressão já no primeiro dia de sangramento
menstrual.
Mas, há aquelas que apresentam cólicas fortes acompanhadas
de náuseas, enxaqueca, dificuldades respiratórias, fadiga,
irritabilidade e depressão psicológica que se instalam
dias antes e invadem o período menstrual: são as portadoras
do
distúrbio conhecido como dismenorréia, termo derivado do
grego, que significa menstruação difícil.
No passado, a dismenorréia era interpretada como inerente à condição
feminina; distúrbio causado por “desequilíbrios psicológicos
característicos do sexo frágil”, a ser abordado no
campo da psiquiatria. Tal visão preconceituosa fez surgirem
tantas teorias para explicar a dismenorréia, que essa condição
se tornou conhecida como “a doença das teorias”.
Hoje, sabemos que, embora fatores psíquicos possam estar envolvidos
na sua origem – como em qualquer enfermidade causadora de sintomas
subjetivos como cansaço, dores e indisposição -,
a doença tem causas bem definidas, quadro clínico sugestivo
e tratamento adequado.
As dismenorréias são divididas em dois grupos: primárias
ou essenciais e secundárias.
1 – Dismenorréia essencial ou primária
Constitui a maioria dos casos. São classificadas como primárias,
quando os sintomas estão relacionados com o próprio útero
durante os eventos que antecedem a menstruação. Nelas,
não há interferência de outras enfermidades, ginecológicas
ou não.
As dismenorréias primárias, caracteristicamente, ocorrem
em mulheres que ovulam.
2 – Dismenorréia extrínseca ou secundária
Quando os sintomas surgem como conseqüência de um distúrbio
ginecológico extrínseco. São exemplos de causas
extrínsecas:
2.1 - Miomas que modificam a forma do útero de modo a interferir
com as contrações ou exercer efeito compressivo sobre as
estruturas vizinhas, provocando dores no baixo ventre que geralmente
se irradiam para a raiz das coxas e para a região lombar;
2.2 - Endometriose: enfermidade causada por proliferação
de células
do endométrio (camada que reveste a parte interna do útero)
na cavidade abdominal e em outras localizações anômalas
ao redor do aparelho ginecológico, que em geral se manifesta na
fase reprodutiva com quadro de dores nos 5 a 7 dias que antecedem o período
menstrual e à qual pode ser atribuída a dificuldade para
engravidar;
2.3 - Doença inflamatória pélvica, causada por processos
inflamatórios/
infecciosos que podem acometer qualquer porção do aparelho
ginecológico, causando dor no baixo ventre, corrimento vaginal,
mal-estar geral e, eventualmente, febre;
2.4 - Tumores pélvicos que comprimem o útero;
2.5 - Malformações uterinas que interferem com o mecanismo
de contração do órgão;
2.6 - Estenose cervical, processo em que ocorre oclusão parcial
do canal situado no colo do útero, dificultando o escoamento do
sangue menstrual e provocando dor em cólica.
CAUSAS
Nas dismenorréias secundárias, a causa é extrínseca
e passível de identificação por meio das técnicas
de diagnóstico clássicas: toque vaginal, ultra-sonografia,
tomografia computadorizada, videolaparoscopia, etc.
Nas primárias, como não são encontradas doenças
que justifiquem os sintomas, tradicionalmente as causas eram atribuídas
a “fatores psicossomáticos”.
Embora seja impossível afastar interferências emocionais
em qualquer quadro de dor, atualmente sabemos que as dismenorréias
primárias estão associadas à produção
anômala de prostaglandinas no interior do útero.
As prostaglandinas são substâncias produzidas na membrana
que reveste a parte interna do útero (endométrio), envolvidas
no processo de contração das fibras musculares uterinas
e oclusão dos vasos sangüíneos que irrigam o endométrio.
Quando produzidas em quantidades inadequadas, podem provocar cólicas
uterinas e contração dos vasos sangüíneos,
prejudicando a oxigenação dos tecidos e acentuando a dor.
SINTOMAS
A cólica é o sintoma dominante. Costuma instalar-se na
véspera ou algumas horas antes da menstruação e
crescer de intensidade no dia que se segue. Pode estar localizada na
parte inferior do abdômen ou ser difusa, semelhante à dos
movimentos intestinais.
Do baixo ventre, as cólicas se irradiam para a raiz das coxas
e para a região lombar, de modo a confundir-se com as dores na
coluna. Em cerca de metade dos casos, a dor vem acompanhada de outras
queixas: cefaléia (que pode ser
persistente e do tipo enxaqueca), náuseas, vômitos, diarréia,
irritabilidade, depressão psicológica, fadiga, dificuldade
de convívio social. Fatores emocionais podem intensificar o quadro.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico de dismenorréia primária é de
exclusão, isto é, só pode ser feito quando causas
extrínsecas foram afastadas. De um modo geral, quando a mulher
se queixa de que os sintomas surgiram na adolescência, quando começou
a menstruar, é mais provável que se trate de dismenorréia
primária. A instalação
tardia do quadro sugere a presença de fatores secundários
que exigem esclarecimento obtido por meio de exames complementares.
Em caso de dúvida, o médico pode empregar o “teste
da pílula” descrito pelo professor S. Piato: prescrever
anticoncepcional oral nos mesmos esquemas empregados para contracepção.
Como a pílula impede a ovulação e a dismenorréia
primária praticamente só ocorre em mulheres que ovulam,
as dores
devem diminuir ou desaparecer. Caso contrário, a suspeita recai
sobre a presença de fatores extrínsecos.
DISMENORRÉIA E DIU
O dispositivo intra-uterino (DIU) é um dos métodos anticoncepcionais
mais utilizados. O DIU previne a fertilização do óvulo
através de múltiplas ações locais, uma das
quais envolve aumento da liberação de prostaglandinas,
mediadores envolvidos no mecanismo de instalação da dismenorréia.
Embora seja um método seguro de contracepção, a
presença do DIU pode facilitar sangramentos uterinos irregulares
e dores no final do ciclo menstrual semelhantes às dos casos de
dismenorréia.
TRATAMENTOS
1) Medidas gerais:
1.1 - Evitar vida sedentária: exercícios aeróbicos moderados
que provocam liberação de endorfinas podem trazer sensação
de bem estar, de autoconfiança, e aumentar a resistência à dor;
1.2 - Calor local: a aplicação de bolsa de água quente
na região abdominal acometida pelas dores, medida adotada desde os tempos
de nossas avós, é sempre indicada;
1.3 - Dieta: alimentos gordurosos que retardam o trânsito intestinal
e alimentos que provocam fermentação devem ser evitados, especialmente
nos períodos pré-menstruais. A dieta deve ser rica em frutas
e em vegetais com fibras para assegurar trânsito intestinal adequado;
1.4 - Hidratação: a ingestão de quantidades insuficientes
de água pode causar ressecamento do bolo fecal e obstipação,
que contribui para agravar quadros de dismenorréia.
2) Tratamento cirúrgico
A cirurgia pode ser necessária nos casos de dismenorréia
extrínseca (presença de grandes miomas, de tumores malignos
ou de focos de endometriose) ou nas pacientes em que o tratamento conservador
não foi eficaz para controle dos sintomas ou do sangramento uterino.
3) Tratamento medicamentoso
3.1 - Anticoncepcionais: como os hormônios contidos nos anticoncepcionais
provocam atrofia do endométrio, local de produção
de prostaglandinas. A pílula está indicada nos casos de
dismenorréia primária em mulheres com vida sexual ativa
que não desejam engravidar.
3.2 - Antiinflamatórios não-esteróides (AINEs/coxibes):
os AINEs/coxibes representaram uma revolução no tratamento
das dismenorréias. Uma análise conjunta (metanálise)
de diversos estudos publicados recentemente mostrou que o emprego de
AINEs/coxibes provoca alívio dos sintomas em cerca de 90% das
pacientes tratadas.O uso de AINES nos casos de dismenorréia tem
ainda uma vantagem para algumas mulheres, porque diminuem o fluxo de
sangramento durante a menstruação.
O uso de anti-inflamatórios não deve ser indiscriminado: é necessário
acompanhamento médico.
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