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Controle do apetite
Até a segunda metade do século XX, a
desnutrição foi nosso principal problema de saúde
pública; hoje, é a obesidade. Cerca de 10% dos brasileiros
adultos são obesos, e outros 30% estão acima do peso saudável.
Portanto,
cerca de 50 milhões de pessoas deveriam perder peso para evitar
doenças como ataques cardíacos, derrames cerebrais, diabetes,
reumatismos e alguns tipos de câncer.
Os sistemas biológicos que controlam a ingestão de alimentos
são complexos e mal conhecidos. Durante os 5 milhões de
anos da existência humana, a fome representou ameaça permanente
à sobrevivência da espécie. Entre nossos antepassados,
sobreviveram apenas aqueles capazes de estabelecer um equilíbrio
rígido entre o número de calorias ingeridas e as necessidades
energéticas do organismo.
Na evolução de nossa espécie, foram selecionados
indivíduos cujos cérebros eram capazes de engendrar mecanismos
biológicos altamente eficazes para evitar a perda de peso. Através
deles, assim que o cérebro detecta diminuição dos
depósitos de gordura, a energia que o corpo gasta para funcionar
em repouso com a finalidade de exercer suas funções básicas
(metabolismo basal) cai dramaticamente, ao mesmo tempo em que são
enviados sinais irresistíveis para procurar e consumir alimentos.
Infelizmente, quando ocorre aumento de peso, os sinais opostos são
quase imperceptíveis: não há grande aumento da
energia gasta em repouso, a fome não diminui significativamente,
nem surge estímulo para aumentar a atividade física; pelo
contrário, tendemos a nos tornar mais sedentários.
Além disso, por razões mal compreendidas, o corpo tende
a defender o peso mais alto que já atingiu. Para tristeza da
mulher e do homem moderno, o organismo protege as reservas de gordura
mesmo quando estocadas em níveis muito elevados. A mais insignificante
tentativa de reduzi-las é interpretada pelo cérebro como
ameaça à integridade física.
Ação da insulina e da lepitina
Para controlar o peso a longo prazo, o organismo produz dois hormônios
que permitem avaliar os níveis dos depósitos de gordura
e ajustar o apetite e a energia que deve ser gasta em função
deles: a insulina e a lepitina.
O papel da ação cerebral da insulina no controle do peso
foi descrito há quase 30 anos. Esse hormônio produzido
pelo pâncreas age numa área do cérebro rica em receptores
dotados da propriedade de reconhecê-lo. Em ratos, quando esses
receptores são inativados, os animais se tornam obesos, imediatamente.
Em seres humanos, enquanto esses receptores estão ativos, o cérebro
mantém sua sensibilidade aos efeitos da insulina, e o apetite
diminui; quando os receptores se tornam resistentes à ação
da insulina, o peso aumenta.
Em 1994, a equipe de Jeffrey Friedman, da Universidade Rockfeller, trabalhando
com ratos mutantes extremamente obesos, descobriu a lepitina, o hormônio
que abriu campo para o estudo dos mecanismos moleculares do controle
de peso. Friedman descobriu que a lepitina era uma proteína antiobesidade
produzida pelo tecido gorduroso, que, ao ser administrada a ratos com
excesso de peso, provocava emagrecimento graças a dois mecanismos:
redução do apetite e aumento da energia gasta em repouso
(metabolismo basal).
Apesar de terem sido descritos casos de obesidade humana por defeitos
na produção de lepitina – portanto, passíveis
de serem tratados com esse hormônio -, por razões ainda
pouco claras, a maioria das pessoas obesas apresentam níveis
até mais altos de lepitina, mas são resistentes às
suas ações. Hoje, admite-se que a queda dos níveis
de lepitina provocada pela redução dos depósitos
de gordura, ao ser detectada pelo cérebro, provoca aumento do
apetite e retardo do metabolismo basal. Mas, quando os depósitos
de gordura aumentam, levando à maior produção de
lepitina, o mecanismo oposto não é significativo: a partir
de certos níveis de lepitina na circulação, o cérebro
se torna resistente a ela.
Hormônios associados ao apetite
Ao lado desses hormônios que controlam o apetite e o metabolismo
a longo prazo, o organismo produz outros hormônios para controlar
o apetite no dia-a-dia.
O primeiro descrito foi a colecistoquinina, proteína que o intestino
libera na corrente sangüínea para estimular o centro da
saciedade existente no cérebro e impedir a ingestão exagerada
de calorias.
Há quatro anos, pesquisadores japoneses descobriram a grelina,
um potente estimulador do apetite na rotina diária. A grelina
é o hormônio responsável pela fome que ataca quando
chega a hora do almoço. Pesquisas mostram que os níveis
de grelina na circulação aumentam uma a duas horas antes
das principais refeições do dia e que voluntários,
ao receber injeções de grelina, experimentam aumento significativo
do apetite.
Para contrabalançar as ações promotoras de apetite
desencadeadas pela grelina produzida quando o estômago fica vazio,
a chegada de alimentos ao intestino provoca a liberação
de um hormônio chamado PYY. Injeções desse hormônio
em camundongos e voluntários humanos causam diminuição
do apetite.
Esses hormônios controladores do apetite e do metabolismo a curto
ou longo prazo agem predominantemente numa região do hipotálamo
conhecida como núcleo arqueado, o centro no qual reside o controle-mestre
dos sistemas regulatórios. Para o núcleo arqueado convergem
dois tipos de neurônios que exercem ações opostas:
estimulação e inibição do apetite.
A fome que sentimos resulta de um equilíbrio ajustado entre esses
circuitos antagônicos, construídos e selecionados por nossos
antepassados remotos com a finalidade de resistir à falta permanente
de alimentos, numa época em que as refeições eram
alternadas com longos períodos de jejum forçado. O que
representou sabedoria do cérebro para enfrentar a penúria
deu origem ao flagelo da obesidade em tempos de fartura.
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